Antes de assinar qualquer compromisso ou desembolsar o sinal, pare. Por mais que a empolgação com a planta ou com a fachada do imóvel seja grande, o documento que realmente define o destino daquela negociação é a matrícula. Ela é a identidade do imóvel, e negligenciar a leitura atenta desse registro no Cartório de Registro de Imóveis é o caminho mais curto para surpresas que podem custar caro lá na frente.
A matrícula funciona como um diário. Nela, cada página narra o passado do bem. Ao solicitá-la, observe primeiro se o nome que consta como proprietário atual coincide exatamente com o da pessoa ou empresa que está vendendo. Parece óbvio, mas divergências aqui são frequentes e indicam que a cadeia sucessória não foi atualizada. Mais do que isso, verifique as descrições de confrontação e metragem. Se o imóvel passou por ampliações ou reformas que alteraram sua área física, essas mudanças precisam estar averbadas.
Existe também o campo das restrições. Muitas vezes, um imóvel parece perfeito, mas carrega ônus que não são visíveis a olho nu. Penhoras, hipotecas, alienações fiduciárias ou ordens judiciais de indisponibilidade ficam registradas ali. Quando você encontra uma dessas anotações, a negociação exige uma camada extra de atenção. Não significa que o negócio é impossível, mas que ele não pode seguir sem a devida quitação ou a baixa formal dessas pendências, algo que deve ser acordado documentalmente antes de qualquer transferência de valores.
Além dos gravames financeiros, a matrícula pode esconder detalhes sobre o uso do terreno ou da estrutura que limitam o que você poderá fazer futuramente. É o caso das servidões, que são direitos que terceiros possuem sobre a propriedade. Pode ser uma passagem obrigatória de tubulações de concessionárias de energia, redes de esgoto ou até mesmo um direito de trânsito concedido a um vizinho ou lote contíguo.
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Ignore essas anotações e você corre o risco de descobrir, após a mudança, que uma parte do seu quintal não pode receber uma piscina ou uma construção definitiva por causa de um duto subterrâneo antigo. A matrícula também detalha se o imóvel foi dado em garantia para dívidas que ainda não foram totalmente extintas. Muitas vezes, o vendedor acredita que a dívida está quitada, mas se o cancelamento não foi averbado no cartório, para o mundo jurídico, ela continua existindo.
Um erro comum é trabalhar com uma matrícula antiga, obtida meses atrás. A situação de um imóvel é dinâmica. Uma penhora pode ser averbada em questão de dias. Portanto, exija sempre uma certidão de inteiro teor com ônus e ações atualizada, emitida nos últimos trinta dias. Isso garante que você está tomando uma decisão baseada no cenário real e atual daquela unidade.
Olhar a matrícula com atenção é uma forma de proteger a sua tranquilidade e garantir que o imóvel que você está comprando não venha acompanhado de passivos ocultos. O documento está em ordem, sem ônus que impeçam a transferência e com a descrição exatamente como você visitou? Então, a segurança jurídica necessária para avançar na assinatura está, enfim, garantida.